segunda-feira, 6 de maio de 2013

"Como Esquecer" - Um Ensaio


Queimar uma foto não basta. Você precisa usar as brasas para queimar também suas mãos. A dor da alma não é o bastante. Para consumar o luto, você precisa sentir no corpo, somatizar propositalmente. Como esquecer? E é preciso deixar de gostar para esquecer? E é preciso esquecer para deixar de gostar? Por que acha-se que para superar um abandono ou separação é necessário deixar de amar? São tantas questões e a resposta para cada deve ser completamente subjetiva.
É sobre esse período sombrio e pós-traumático que trata o incrível filme da diretora Malu de Martino. Muitos já abordaram o tema, tão delicado e pessoal, mas poucos conseguiram convencer na dor, em mostrar a profundidade dessa ferida, que muitos sequer entenderão. Muita gente esquece o velho colocando um novo no lugar e é exatamente isso que a personagem de Ana Paula Arósio, sabiamente, evita fazer. Júlia, professora de literatura esplendidamente interpretada por Arósio, prefere ir pelo caminho mais difícil: o de não tapar o sol com a peneira. Diria melhor: não tapar o buraco com palha. Quando um amor não só foi intenso, mas também responsável pela mais bela época de sua vida, é um erro tentar esquecer com um novo alguém ou no período imediatamente após. Você precisa descosturar fio por fio no seu coração. E isso leva tempo e coragem.
Júlia passa por todas as etapas: perde a vontade de comer (não, não é se entregar, a fome desaparece por conta própria), de conversar, de ver pessoas, o vazio é tão grande que quase engole. Em certo momento, a personagem parece completamente desprovida de qualquer vaidade, de qualquer orgulho. Alguns deixam de se alimentar, outros de tomar banho. Os insensíveis pensam "que pena, que horror... que falta de amor próprio!", mas quem já não passou por algo parecido que atire a primeira pedra. Cada um com seus sintomas. É comum ver-se com piedade de alguém que poderia ser você próprio. Por isso deveria-se parar de tratar quem sofre como uma vítima de si mesmo, pois até no sofrimento é preciso coragem para entregar-se por completo, viver intensamente a fase.
Como pode alguém, a quem nos dedicamos por tanto tempo, a quem demos carinho, corpo e coração, e pior, que nos dava tudo isso de volta; como pode esse alguém simplesmente virar, ir embora e nunca mais aparecer? Ou continuar por perto, mas ignorando você o tempo inteiro? A dor do abandono é inigualável e a direção sensível de "Como Esquecer" consegue transferir um pouco desse peso ao espectador. Em uma cena marcante, Júlia pede para que seu melhor amigo a amarre em uma cadeira, pois ela precisa expurgar aquela dor através do físico.
Interessante também é a total originalidade de Júlia. Alguém que não tenta seduzir, mas é de um charme natural, não forçado; alguém que não força simpatia alguma nem tenta ser tolerante com o que não tolera, como por exemplo nas cenas em que, sem fazer média, dispensa as tentativas frustradas de aproximação de uma aluna incoveniente. A personagem definitivamente tem singularidade, personalidade forte e carisma (não confundir com simpatia).
Outro aspecto chamativo na obra são os personagens secundários, principalmente os amigos de Júlia, interpretados com precisão por Murilo Rosa e Natália Lage. Também em períodos difíceis de suas vidas, um "carrega o outro no colo", movidos por uma solidariedade comovente e rara nos dias atuais.
A fase final (ou talvez a penúltima fase) também é vivida pela protagonista: aquela em que, finalmente, deixa-se alguém se aproximar - é então que entra em cena a personagem de Arieta Corrêa. Porém, diferente da maioria dos casos, aqui levou um bom tempo para acontecer e Júlia, sábia como só ela, refletiu bastante para evitar que uma pessoa que emergiu de repente servisse somente como um tapa-buracos confortável.
Certas cenas lembram de alguma forma a fotografia ou as paisagens do português "Um filme falado" e também de "Casa de Areia e Névoa". A melancolia é presente do início ao fim, mas o título da história é autoexplicativo: com toda essa tristeza, ainda assim será um filme inesquecível.

#gênero: Drama
#direção: Malu de Martino
#duração: 100 minutos

Trailer



Nota da Valéria: 9/10

quarta-feira, 9 de março de 2011

Destrinchando "Cidade dos Sonhos": Uma Crítica (Contém spoilers)

"Imagine que um livro se torna best seller. Todos querem ler, todos adoram o livro e querem tirar dúvidas sobre seu conteúdo. Mas, antes do lançamento, o autor morreu. Então você é obrigado a descobrir as respostas sozinho". Assim a atriz Naomi Watts faz uma alusão ao enredo aparentemente interminado de "Cidade dos Sonhos" (2001). Lynch teria feito a tal comparação.

O filme traz consigo a polêmica do oito ou oitenta. Ou você o ama ou você o odeia. Mas a impressão que tenho é que somente mentes pacientemente sensíveis podem realmente entrar no clima de gentil recepção necessário para entendê-lo: é preciso estar com as portas da consciência completamente abertas para o novo, o mistério e o pertubador.

Quem gosta de roteiros muito autoexplicativos deve fugir desta obra de David Lynch. O diretor, misterioso por natureza, deixa algumas questões em aberto para que possamos destrinchá-las baseados em nossa própria percepção. Mas Lynch dá dicas, várias dicas. O filme não é tão difícil assim e nem tão insolucionável. A dica é ver mais de uma vez, de preferência várias vezes.



A cada experiência uma nova nuance é revelada. Outros personagens vão ganhando sua atenção. Você se pergunta "O que esses velhinhos realmente significam nesta estória?" ou pergunta "Qual a função de um monstro escondido atrás de uma lanchonete?". Mas existem sim soluções para essas perguntas. Somente não são soluções óbvias, mas o diretor genial dá várias pistas, quando, por exemplo, usa nomes iguais para personagens diferentes. Uma garçonete chamada Betty vira a ingênua aspirante a atriz de Hollywood representada por Naomi Watts, mas você só descobre isso no fim do filme. E só descobre que Betty era um sonho, uma ilusão, quando o filme entra em sua segunda metade, a metade realista, a metade que corta toda a alucinação que até então, você pensava que era a realidade. Há uma reviravolta.

Você pode pesquisar a opinião dos atores envolvidos, do diretor, mas isso não substituirá sua própria perspicácia. Toda a responsabilidade de entendimento e de sensibilidade para tal é repassada para o telespectador. O filme é claramente dividido em duas partes, radicalmente diferentes, e na segunda você percebe que nada era o que se pensava até ali. Nomes são trocados, ou revelados, temperamentos mudam, atitudes e relacionamentos que pareciam uma coisa se transformam em outra. Em minha percepção, e também nas das atrizes principais da trama, Naomi Watts e Laura Harring (opiniões reveladas em entrevistas), a primeira parte do filme vem do subconsciente de "Betty", que na verdade não existe, não com esse nome, não a Betty da história da mocinha que chega em Los Angeles e se hospeda na casa da tia que é atriz e rica; e não a Betty que ajuda uma atriz famosa a descobrir quem é depois de perder a memória em um acidente de carro.

O incrível de Cidade Dos Sonhos é que o cineasta explora várias temáticas sem perder a profundidade em nenhuma delas. O nome do filme faz referência à Hollywood, uma cidade onde sonhos são perdidos ou realizados. A cidade onde todos podem se achar ou se perder. A fotografia da obra é incrível e as cenas noturnas são privilegiadas, pois Los Angeles é também uma cidade de luzes coloridas e mistério.

O nome do filme também é uma alusão à trama propriamente dita, que explora, de forma a praticamente destilar, o subconsciente da personagem de Diane (esse era o verdadeiro nome de Betty), que se apaixonou por Camila Rhodes (Laura Harring) e por tudo que ela representa. Camila está onde Diane sempre quis chegar. É uma atriz bem sucedida, poderosa e sexy. Esse envolvimento é baseado em atração, paixão e principalmente por uma obsessão motivada provavelmente pela inveja ou pela admiração excessiva de Diane por Camila. Tudo isso fica muito claro na segunda metade, quando Camila rompe o envolvimento sexual entre as duas porque agora está apaixonada pelo diretor do filme em que Camila terá o papel principal; filme e diretor estes que estão costurados no enredo do início ao fim. Na cena seguinte ao rompimento, Diane fica desesperada em uma cena de choro e masturbação, sobre a qual a atriz Naomi Watts comentou ter se sentido humilhada em fazer. Enfim, tudo parece ter dado errado para Diane e seu desejo não se realizou na cidade dos sonhos.

David Lynch entra na mente de Diane e lá encontram-se sonhos, medos, pesadelos, ilusões. Pessoas viram outras pessoas, como realmente acontece nos sonhos da vida real. Coco, por exemplo, que em sonho era a síndica do condomínio da tia de Diane (até então Betty) é na verdade uma pessoa de um ambiente totalmente diferente. Um albino vestido de cowboy, que fazia parte da máfia da produção do filme, reaparece rapidamente na cena de uma festa na casa do diretor Adam Kesher (Justin Theroux), e talvez essa rápida aparição final tenha passado despercebida por muitos que viram o filme. Parece uma "pegadinha" do Lynch, que brinca com mensagens subliminares. O cowboy, que mandava mensagens dos produtores (e agora donos) do filme para o diretor Adam Kesher de forma ameaçadora, agora estava ali, na casa do cineasta, em sua festa. Mais um aspecto confuso da parte que é sonho.

Lynch encontra ainda espaço para denunciar eventos que provavelmente acontecem de verdade em Hollywood. Todo esse clima de conspiração, de máfia de produtores, do diretor que perde seu filme para os que o financiam, é um retrato, meio exagerado talvez, mas é um retrato do que pode se tornar a arte quando transformada em indústria. E esse clima conspiratório é muito bem colocado na primeira parte de Cidade dos Sonhos.

Na primeira metade, Betty (que ainda não sabemos que é Diane) chega ao aeroporto de L.A acompanhada de dois idosos. Esses velhinhos também entrarão nos piores pesadelos de Diane, uma vez que eles foram a simpatia que virou ironia do destino. Uma boa recepção, um final trágico. Há também uma misteriosa chave que abre uma caixa e essa caixinha aparece, em uma cena, nas mãos do monstro que fica atrás da lanchonete. Pode-se interpretar livremente. Chave para a realidade, para os sonhos, para a fama, para o quê? Betty quer a morte de Camila. Betty quer a chave que abre as portas para seus desejos. Mas como conseguir tal feito se na realidade tudo é tão diferente? Não há orquestra. Não há banda. É tudo uma gravação. Silêncio.


#direção: David Lynch
#ano: 2001
#título original: Mulholland Drive
#drama, suspense

Nota da Val: 10/10.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

"As Horas"


Virginia Woolf teria sido tão perturbada mentalmente quanto Nicole Kidman transpareceu ser ao encarnar a personagem da escritora, morta nos anos 40? Provavelmente sim ou até mais. Virginia Woolf e sua literatura enigmática são o cimento que enlaça estórias e história no filme As Horas.

O filme foi baseado no livro de mesmo nome, do autor contemporâneo e fã assumido de Virginia Woolf, Michael Cunningham.A obra é dividida em três épocas diferentes: anos 20, no qual ele descreve o que seria a vida turbulenta da escritora, anos 40 onde entram os personagens meramente fictícios, encabeçados pelo personagem Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa insatisfeita com a vida morna que leva; e finalmente os anos 2000, tendo como representante principal Clarissa Vaughan (Meryl Streep), personagem inspirada na Mrs. Dalloway, essa criada por Virginia na vida real, em livro de mesmo nome.

No filme, que segue à risca tal divisão e todo o enredo do livro, misturando realidade biográfica e ficção, vê-se atuações magníficas das três atrizes principais. Nicole Kidman levou o Oscar de Melhor Atriz por seu papel em As Horas. É impressionante também a interpretação de Ed Harris, que faz o papel de um homossexual aidético, melhor amigo e ex-amante de Clarissa. Ele, não por acaso, chama-a de Clarissa Dalloway. Nessa perspectiva, começamos a perceber que as três histórias estão interligadas de alguma forma. Onde entraria, em meio a primeira e a última estória, a ligação de Laura Brown com a vida de Woolf, de Clarissa ou de Richard (Ed Harris)? O filme, sutilmente, responde essas perguntas.

Dirigido com a sensibilidade típica de Stephen Daldry (diretor de Billy Elliot e de O Leitor), As Horas é um filme sobre amor, desespero e consequências. Mostra, de forma inteligente e dramática, como algo escrito em uma época pode influenciar ou retratar, de alguma maneira, a vida de pessoas que pareciam não ter nada a ver com aqueles escritos, pois vivem em contextos completamente diferentes, pelo menos na aparência.

Trailer


Nota da Val: 10/10

#Título Original: The Hours
#EUA, 2002
#115 minutos
#Diretor: Stephen Daldry

terça-feira, 3 de agosto de 2010

"Lolita" (1997)


Um carro antigo desgovernado numa estrada qualquer dos EUA. Quem dirige é Humbert Humbert, um pedófilo confesso, mas apaixonado. Um pedófilo que nunca forçara nenhuma menininha a nada. Pois apesar de pedófilo, não era criminoso. Era um doente, mas não um criminoso. Princípios ''externos'' o impediam de cometer qualquer ato sem que a outra pessoa também o quisesse. Mas se alguém quer entender quem é Humbert Humbert (representado no filme por Jeremy Irons) precisa ler o livro.

Logo depois de balbuciar algumas palavras sobre seu amor perdido, Lolita (Dominique Swain), Humbert começa a narrar sua trajetória até aqui. Primeiramente, ele precisa explicar que Lolita é um espelho do seu amor de infância, Annabel, que morreu jovem e se congelou em eterna juventude na mente de Humbert. Dessa forma, ele a procurou eternamente em outras moças igualmente jovens.

Humbert é viajado, belo, vivido e já foi casado e traído. Professor de literatura, um dia vai para os EUA e acaba se hospedando na casa da senhorita Charlotte Haze (Melanie Griffith). Humbert quase recusa-se a ficar no local até que descobre que Charlotte tem uma filha. Não uma filha qualquer. Doze anos de idade, loira, e principalmente: uma ninfeta. Era Lolita. Ninguém menos que ela.

Lolita é inicialmente um personagem adorável. Um capetinha adorável. Gosta de folhear revistas sobre famosos e faz teatro na escola. Engraçadíssima, tanto no livro quanto no filme, Lolita vê Humbert como o pretendente de sua mãe com cara de galã. E por ter cara de galã, ela fantasia inocentes momentos românticos com ele. Nada sério. Mas tudo isso acaba aproximando-os. Sem que Charlotte perceba.

E quando percebe, Charlotte é atropelada e morre. A partir daí começa uma semi-aventura de Humbert com Lolita pelas estradas dos EUA. Nos hotéis, para ficar no mesmo quarto que Lollie, Humbert finge ser seu pai. Dentro dos quartos não. Dentro dos quartos um pseudo romance (pseudo por parte da ninfeta) se inicia.
Porém, Lolita é muito mais do que um romance psicológico. Psicológico porque não coloca Humbert como herói ou correto, mas como um homem que sofre com sua própria obsessão. O livro explora esse lado mais detalhadamente, como de costume com obras literárias adaptadas ao cinema. Lolita, a obra, é tanto um drama, um romance quanto um suspense de primeira qualidade. Há um clima de mistério sobre um homem que aparece no primeiro hotel em que se hospedam. E isso perdura o filme inteiro. Lolita some e há alguns suspeitos. Humbert entra em desespero. São cenas tristes e de extrema tensão.

A obra já tinha sido anteriormente filmada, também brilhantemente, pelo diretor Stanley Kubrick, em 1962. Mas a versão de 1997 não fica devendo nada. Até porque as duas obras focam diferentes perspectivas da estória. A direção de Adrian Lyne tem bela iluminação e atuações magníficas. Além disso, em minha opinião, o filme de 97 tem uma Lolita mais bonita e cenas mais fortes.

Como prometi que não faria "spoilers" nas minhas resenhas deste blog, não contarei o que acontece nos últimos momentos. Porém posso dizer que o que fica de Lolita é um aprendizado sobre uma mente pedófila e principalmente sobre a mente obsessiva. É um conhecimento psicólogico que fica para a toda a vida, além de memórias doces e engraçadas dos personagens de uma história tão trágica.

Observação: este blog não apóia ou incentiva a pedofilia.

Nota da Valéria: 9/10

#título original: Lolita (baseado em obra de Vladimir Nabokov)
#gênero: drama/romance/suspense
#duração: 137min
#direção: Adrian Lyne

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quinta-feira, 22 de abril de 2010

"Across The Universe"


Um filme sobre amor, passado na turbulenta e revolucionária década de 60. Trilha sonora: Beatles, Beatles e Beatles. A primeira cena é belíssima, uma introdução calma para o subsequente turbilhão. Jude, interpretado pelo lindíssimo Jim Sturgees, canta sobre sua amada - Lucy (Evan Rachel Wood, belíssima como sempre e numa ótima atuação) em uma praia num dia frio. A primeira cena do musical que realmente me marcou foi a de "Let it be". Logo depois, "Come together", mostrando a atmosfera da Nova York dos anos 60, é realmente convincente. Jude é um cara inglês que vai aos EUA em busca de seu pai. Lá, conhece o irmão de Lucy, que o leva para NY e para todo tipo de festa e ambiente propício ao clima proposto pelo filme. Em uma dessas cenas, uma cantora chamada Sadie, que muito me lembra o estilo da Janis Joplin, causa excitação em quem a ouve naquele clima de noite de rock e descontração. A escolha das músicas é sempre perfeitamente cabível às cenas. E saíram do clichê, não usam somente as mais famosas e tocadas dos garotos de Liverpool. Direção de arte (Peter Rogness) super bem pensada, impecável. Em alguns momentos a cenografia e os efeitos especiais me lembraram a maravilhosa série Angels in America. Em outros, a diretora brinca de alterar as cenas para o modo preto e branco. Mas nem tudo é diversão, sexo, drogas e rock n'roll. Há um lado politizado no filme, que mostra seus personagens realmente engajados, participando de protestos pacíficos pelo fim da guerra no Vietnã. Algumas cenas parecem surreais ou psicodélicas, bastante cor. Em um dado momento me senti dentro do país das maravilhas de Alice, por tanto surrealismo!

No início, o filme parece meio monótono, chato, o roteiro parece que não vai se desenrolar. Mas, apesar deste não ser o ponto mais atraente da obra, ele é bom, apesar de simples. A partir dos trinta minutos a história começa a melhorar. E lembro, o filme é recheado de música dos Beatles mas não é sobre os Beatles. O problema é que neste musical os diálogos e a própria história não são o mais importante e sim como o roteiro é apresentado esteticamente e musicalmente. Por isso digo que é um tanto aexperimental e a direção de arte arrebenta. Prova disso é a fantástica cena de "Strawberry Fields Forever" e de "Across The Universe". A diretora, Julie Taymor, parece se importar bastante com as cores e estética de seus filmes, vide "Frida". Que a cineasta continue assim.
 

 
#titulo original: Across The Universe
#direção: Julie Taymor
#duração: 131min
#gênero: Musical

*Nota da Val: 8,5/10

sábado, 3 de abril de 2010

"Chico Xavier"

São Luís, 02 de Abril de 2010. Fila do cinema ultrapassando o salão de espera e indo até a praça de alimentação do shopping. Jovens, idosos, crianças. Aquela fila única, num cinema com dez salas, era somente para a sala 10: o filme era sobre Chico Xavier. É incrível ver que nesse mundo caótico ainda existam tantas pessoas em busca de algo Superior.
Tenho espiritualidade mas tentarei fazer a resenha da forma mais imparcial possível, se é que isso pode ser feito, afinal o filme é sobre religiosidade, espiritualidade. Então mudo de ideia neste exato momento e vejo que isso é realmente impossível. Emocionei-me em vários momentos da história. E mesmo quem não é espiritualista deverá se emocionar com a história de vida de Chico Xavier, porque antes de ser um médium ele era um homem e um homem que teve uma infância e uma adolescência muito sofridas. Para se ter ideia, a mãe de Francisco Cândido Xavier morreu quando o garoto tinha 5 anos de idade. Após isso, ele ficou aos mandos se sua madrinha, que o obrigava a lamber feridas de seu filho e dava garfadas na barriga de Chico. Depois disso, sua primeira madrasta (não confudam com a madrinha citada anteriormente) morreu, deixando o garoto órfão duas vezes. Trabalhou desde cedo, estudou somente até a 4ª série. Mas era um homem disciplinado e motivado a aprender. E assim motivou-se desde bem jovem a estudar a fundo a doutrina para a qual tinha o dom, a Doutrina Espírita. Emmanuel, seu guia espiritual, ensinou bem seu aprendiz. Já os aspectos artísticos do filme são também surpreendentes. Atuações estupendas de Christiane Torloni e Tony Ramos, que interpretam um casal que foi atendido por Chico de forma inesperada após perderem o seu filho. O caso desta psicografia, em especial, é muito interessante pois na carta o filho deles inocentava seu assassino, dizendo que tudo foi um acidente. E a Justiça acatou, fato que entrou para a História Judicial do país. Já Chico Xavier é interpretado por três bons atores, Mateus Rocha - ator mirim-, Ângelo Antônio e Nelson Xavier, que é um excelente ator por natureza e faz uma atuação impecável, além da aparência, muito similar à de Chico. Outros ótimos atores conhecidos fazem pequenas participações, como Letícia Sabatella, Cássia Kiss, Giovanna Antonelli, Giulia Gam, Paulo Goulart, Ana Rosa, etc. Todos prazerosamente eficazes. A direção de Daniel Filho, por sua vez, é extremamente profissional com boa dose de poesia e uma ótima fotografia. As imagens mineiras ajudam bastante. "Chico Xavier" é baseado no livro As Vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior. Já li a biografia e creio que para os que acreditam no espiritismo ou para os que querem acreditar, é essencial ler o livro, de preferência antes de ver o filme. Mas se não for possível, o filme por si só já dá uma ótima base do que foi a vida e o trabalho do grandioso Chico Xavier. Uma obra da Sétima Arte para espíritas e não-espíritas, sem dúvidas.

Curiosidade: Chico morreu exatamente como preveu: após todo o Brasil estar feliz. No final do filme entenderão o porquê.

 Trailer


#direção: Daniel Filho
#duração: 125 min
#gênero: drama, espiritualidade



Nota da Val: 9,5/10

sábado, 20 de março de 2010

"Dreamgirls - Em Busca de um Sonho"

 Não gosto muito de musicais, a não ser quando contam história reais, ainda mais sobre grandes estrelas da música, como Ray (de 2004). Aí a coisa fica muito mais interessante, pois mata curiosidades biográficas e musicais sobre astros que realmente existiram.
DreamGirls é mais ou menos uma história verídica. Baseada na jornada do trio The Supremes e passado em Detroit na década de 60, alguns fatos foram modificados e nomes de artistas e bandas foram trocados, mas é claro que são as Supremes que estão ali, assim como outras estrelas, do porte dos Jackson 5.
O filme começa com Curtis (Jamie Foxx, de Ray), um vendedor de carros que sonhava com carreira de empresário musical tendo a oportunidade de sua vida: encontra o trio The Dreamettes e passa a gerenciá-las. As cantoras do grupo são Deena Jones (Beyoncé Knowles), Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) e Effie White (Jennifer Hudson).
Apesar de ser um musical, o filme exagera um pouco na quantidade de cenas com texto cantado, porém a direção de arte é impecável, assim como a maioria das atuações. Eddie Murphy, mesmo com sua antipatia habitual, arrasa em sua atuação dramática.
O sucesso das Dreamettes começa exatamente quando elas passam a se apresentar junto com James "Thunder" Early (Eddie Murphy). Curtis troca a cantora principal do grupo e, pensando sempre apenas no sucesso comercial da música, assina e rompe contratos como quem troca de roupa, magoando muitos artistas ao seu redor.
Assim, no filme há aquela crítica sempre bem-vinda ao excesso de comercialização e industrialização da música, assim como à briga de egos que, no fim, vê-se estúpida e inútil.
Com músicas agradáveis, bem dentro do contexto, boas cantoras e uma ótima surpresa -a atuação de Jennifer Hudson, que ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante pelo filme em 2007-, Dreamgirls é um típico musical norte-americano, bem feito e eficiente.

#titulo original: (Dreamgirls)
#direção: Bill Condon 
#duração: 131 min
#gênero: Musical

Nota da Valéria: 7,5/10 

sábado, 13 de março de 2010

"Um Homem Sério"

Bem no estilo dos irmãos Coen (de "Onde os Fracos Não tem Vez"), Um Homem Sério - indicado a melhor filme no Oscar 2010-, me agradou. Talvez porque eu não esperasse respostas e por ter percebido desde o início que o filme não era resposta e sim uma grande pergunta. Sobre muitas coisas.
Eu vou ter que usar a primeira pessoa nesta resenha. Porque me identifiquei com o filme. Não com tudo, mas com algumas coisas dramáticas que acontecem na nossa vida quando menos esperamos. Larry (Michael Stuhlbarg), personagem principal, é realmente um homem sério, judeu, pai de família - dois filhos nada amáveis: um garoto revoltado e uma garota chatinha que só pensa em lavar o cabelo-, professor de física. Sem mais nem menos, sua esposa vem lhe falar, na maior naturalidade, que quer se divorciar para ficar com um colega de Larry. Assim, "na lata". É nessa parte que eu me identifico, entende? Essas traições e rupturas acontecem quando menos esperamos e quando há traição, com quem menos esperamos.
Isso vem como um furacão na vida de Larry. É só o começo de muitos problemas. Seu irmão é acusado de "sodomia" pela polícia, ele é subornado e ameaçado por um aluno que tirou nota baixa em sua matéria, nenhum dos rabinos procurados por ele parece lhe dar uma resposta para tanta angústia, etc. Mas é isso que eu falei: o filme não é uma resposta, é uma pergunta. Uma pergunta gostosa de se acompanhar, com uma fotografia agradável, boas atuações, boa dose de realismo (ou pessimismo? depende do ponto de vista), ótima direção e roteiro. A introdução do filme é praticamente um curta metragem à parte.
Quando assistirem ao filme, lembrem do furacão que mencionei acima. Furacões vem do nada, sem explicações e carregam tudo consigo, certo? No filme há uma sutil referência a isso, que por muitos deve ter passado despercebido. Mas eu percebi. E o nonsense do filme para mim fez mais sentido que nunca.


# título original: A Serious Man
# gênero: Drama e Comédia
# direção: Ethan Coen e Joel Coen
# duração: 105 min

Trailer


Nota da Valéria: 9/10

quinta-feira, 4 de março de 2010

"Bastardos Inglórios"


A criatividade "pop art" de Quentin Tarantino é de deixar qualquer um boquiaberto. As várias referências musicais e cinematográficas do diretor, além das culturais em geral, conseguem fazer com que até um filme de época pareça algo transcendental.

Em "Bastardos Inglórios", Tarantino inova quando faz a mixagem de fatos reais com pura ficção. Nada menos do que a Segunda Guerra Mundial, o Nazismo, a SS e os judeus perseguidos (fatos reais) misturados com a história fictícia de uma judia (Laurent) que conseguiu escapar de um coronel nazista que matou toda a sua família na França e o reencontra tempos depois, podendo se vingar. Christoph Waltz - indicado merecidamente pelo papel a Melhor Ator Coadjuvante no Oscar 2010 -, é o tal coronel, simplesmente a mais brilhante atuação do filme, devido ao seu cinismo tão bem construído.



Outro ingrediente da mistura genial e organizada do filme é o grupo "Os Bastardos", que tem por objetivo exterminar os nazistas e atrapalhar seus planos. O chefe dessa patrulha é Aldo Raine (Brad Pitt), que deixa uma suástica nazista feita a facão na testa de suas vítimas sobreviventes; obviamente a violência física, tão apreciada por Tarantino, tem seu lugar no filme. Hitler e outros famosos generais também aparecem. O engraçado do roteiro é que até o fim de Hitler é modificado.

Cheio de nuances históricas (temperadas por músicas mais modernas como Cat People de David Bowie - mais uma referência pop de Quentin), boa parte de Inglorius Basterds se passa justamente em um cinema, do qual a dona é Shosanna Dreyfus interpretada com muito glamour pela atriz Mélanie Laurent. Ironicamente, o único amigo dela é um negro, "raça" odiada pelos nazistas.
Daniel Brühl, conhecido e jovem ator alemão, interpreta um soldado nazista que apaixona-se por Laurent e acaba por conseguir que a estreia de um filme sobre sua própria história militar(e na qual ele mesmo atua), seja realizada no cinema da moça. Lembram que ela é judia? Pois é, mas aqueles nazistas todos nem imaginam. Daí por diante, perigo à vista.

# título original: Inglorius Basterds
# gênero: Guerra
# direção: Quentin Tarantino
# duração: 162 min

Trailer



Nota da Valéria: 10/10

domingo, 28 de fevereiro de 2010

"Preciosa"


Um filme pesado. Em algumas cenas é necessário fechar os olhos, tamanha violência, física e psicológica. Precious Jones, interpretada pela novata Gabourey Sidibe, indicada ao Oscar de melhor atriz em 2010, é uma personagem que cativa aos poucos o telespectador.
Inicialmente bruta, como o ambiente e pessoas que a cercam, Precious não parece alguém que vá nos fazer torcer por ela. Dá a impressão de aceitar uma rotina medíocre e triste, suas limitações e seu submundo de forma passiva. Mas isso muda ao decorrer do filme. Passa-se a torcer por aquela garota obesa, negra, pobre e abusada sexualmente pelo próprio pai, com quem tem dois filhos - um deles com Síndrome de Down.
Na segunda gravidez, é expulsa da escola e vai para uma instituição alternativa, na qual encontra garotas problemáticas como ela. Além do pai (que mal aparece no filme), a mãe de Precious, interpretada magnificamente pela atriz Mo'Nique, indicada a Melhor Atriz Coadjuvante, parece uma mulher frustrada emocionalmente e que desconta toda essa frustração em Precious, da forma mais violenta possível.

Tudo muda quando Precious passa a frequentar a escola alternativa e tem sessões com a Sra. Weiss, assistente social interpretada pela cantora Mariah Carey, que surpreendeu pelo bom desempenho como atriz.
No decorrer dessa jornada, começa-se a perceber que Precious de passiva nada tem e, pelo contrário, tem muitos sonhos, é capaz de amar e só parecia embrutecida por causa do ambiente em que vivia, pois às vezes não se enxerga uma pedrinha preciosa numa pedra bruta.


# título original: Precious: Based on the Novel Push by Sapphire
# gênero: Drama
# direção: Lee Daniels
# duração: 01 hs 50 min

Nota da Valéria: 9,8/10